Bricoleur Bricoleur por: Cauê Drumond 20 de julho de 2018

Bricoleur

No sobrado daquela família havia um grande arcanjo pendurado na parede da sala. A pele sem vigor. Pálido. Os lumes desaparecendo no rosto galgaz afundando e afundando. Atingindo meio-dia o olho ficava completamente branco e luzia no espelho baixo que ficava ao lado do criado-mudo. Tinha o tinido da corda B. Era ali que o garoto ajeitava a juba antes de ir à escola. Todo santo dia. Aos fins de semana analisava o muque e nos feriados gostava de cantar em sí, bem fininho, e dizia que aquele buta guardião de deus sorria toda vez. Com a nota aguda atravessando a retina.
_ Tira esse menino daí! Daqui a pouco ele não enxerga mais.

Conversavam como se o menino não tivesse ouvido. Eugénie Loyer dando adeus nA Noite Estrelada.
_ Ele tem aula de música às treze. Deixa, deixa.
Da janela o sol assenhorava-se impositor telúrico. Uma lupa daria pra matar todas as formigas que subiam o armário velho de livros que ficava ao lado da poltrona vermelha onde o pai sempre deixara sua caneca com o fundo cheio de açúcar.

_ Mas hoje não é Tiradentes?

Do outro lado do cômodo estão suspensas uma tríade de cordas em volta da lareira. O avô guardava recordações do tempo de cavalaria. De quando domava o animal. Coitado! tinha a coluna tão reta que o quengo caiu pra trás. Parou.
_ O que é que o cu tem a ver com as calças?
_ Pensei que não tivesse.
_ A professora vai fazer uma homenagem. Inconfidência Mineira.
_ Ah, então ele não vai.

_ Por quê?
_ Porque isso é doutrinação marxista.

A mulher que enxugava a louça pausou segurando a faca pelas serras. O resto de sal no polegar e no indicador. Cílios úmidos de cebola. O relógio minúsculo em algarismos romanos.
_ Que bobagem!

À noite quando o céu escurecia o azul, o guri fugia do quarto. Abria a porta feito um ladrãozinho. Como o ar que invade a garganta depois do Halls preto. As meias abafavam o crime. Os fagueiros olhinhos vivos na madrugada. Sentou indiozinho no tapete aveludado. Ficava ali olhando aquele homem pênsil nu. Cadê o peruzinho dele? Desde que meu avô é moço e nada de nascer um pingulim nesse rapaz. No banheiro, às onze, escondia o piu-piu entre as pernas. Revirava os lumezinhos. Ficava arquejando e esperando as penas chuá chuá desligava o chuveiro sempre que sentia um peso nas costas. Girava as escápulas ascendendo um sorriso. A chave caía. A auréola congelava.
_ A gente que não bote ele na linha.
_ A gente vírgula! Vírgula.

Depois da escola o pequeno até tentava brincar com os amigos na sala. Mas tinha vergonha. Aquele soldado de Deus sem um pingo de dignidade… Como veio ao mundo. Os anjos não se vestem. Os arcanjos, portanto, deveriam ter um pouco de pudor. Ora, veja. Mandou a visita ir embora. Até amanhã! Até amanhã! A gente se vê na classe. Bateu o trinco e respirou apoiando-se na porta. Foi até o quarto. Pegou um rolo de barbante branco. Cortou várias tiras. Enrodilhou nas orelhas, nos dedos dos pés e das mãos e na ponta das asas. Sentou indiozinho e colocou as outras pontas dentro da própria boca. Tentava decifrar os pensamentos daquele homem que flutuava. Fazia força, retesava as sobrancelhas. Grunhia de vontade. Cadê seu pinto? Meu avô tirou seu pinto? As pessoas que montam em cavalos não têm pinto? Por isso mamãe mija sentada… Papai tem crinas enormes embaixo do braço. Relincha feito um jegue. Foi ele, é. Colocou você aqui. Preso.
_ Você é besta!
_ E você um cavalo.

Vira-lata! Era possível ver as lagriminhas escorrendo como um milagre das virgens ocas que choram ao sono dos padres. Abriu a boca e bocejou fundo. Um bafo de enxofre. Foi ao quarto, olhou em redor, fitou o espaço aberto: um estofo grosso com a cor do céu. Pingos de tinta branca imitando constelações corpos caspas. É ali. Voltou à sala e puxou através das pontas úmidas de saliva: é ali! Vamos, tenho uma coisa pra te mostrar: buf! Agora faltam seis.
_ Vão instaurar a ditadura comunista no Brasil, tá sabendo? Ditadura comunista! Gayzista! Se a gente não cuida direito do nosso filho, daqui a pouco tá aí, oh… Fumando droga! Beijando homem, fazendo o que não deve.
_ Que barulho é esse? Era a sétima trombeta que zoava pérfida ao caçoar santo? Parece que é no teto. Tem gente no telhado?

Lá em cima. Do topo. Os barbantes enforcando o pescocinho. Os resquícios das penas em gangorra abaixo dos bracinhos em redentor. Um saltador ornamental chuá chuá. Deus soprava uma brisa de bala ardida no rosto. Pula pula pula. As lagrimecas como orvalhos no capulho. Coragem, coração! Coragem. Me dissesse ao menos onde esconderam teu sexo pupilas unhas entranhas. Ao menos o endereço do deus que não delustra-se com tua nudez outros nomes fracassados dejúrios aversos desejos. Agora me desculpa. Vamos ser libérrimos, tá? Libérrimos. O resto o papai limpa. Papai sonha em me ver voar.

Foto de capa: Cauê Drumond

Por |2018-07-20T14:18:50-03:0020 julho - 2018|Contos, Escritos|
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