Festival Dezindie – Som e silêncio

Escrevi esse texto no ano passado, depois de fotografar a banda “E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante” no Festival Dezindie 2018, no Parque Botyra, em Mogi das Cruzes.

Um dia memorável, no qual conheci pessoas incríveis, ótimas bandas e me aproximei um pouco mais do projeto independente mogiano. “Projeto”, no singular, porque acredito que todo o movimento artístico sustenta uma consciência e unidade comum a todos nós.

O show da banda foi uma experiência que me fez refletir um pouco sobre a nossa relação com a música e com nós mesmos em tempos de sobrecarga de informações e ultra-velocidade digital.

“E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante” – Por Sérgio Jomori

A internet junto das plataformas de streaming nos permitiu que, em um mesmo dia, em qualquer lugar, a gente possa por pra tocar uma playlist, e nela, ouvir dezenas e dezenas de músicas dos mais variados artistas de todo o mundo, que deixam ali expostas ideias e emoções de todas as cores e formas.

E que ótimo isso! O acesso cada vez mais fácil nos torna, de fato, mais abertos a novidades e pessoas mais ativas como consumidoras do produto artístico.
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Mas ainda assim, algumas bandas me fazem reviver experiências que considero valiosas: ir a um show ou então ouvir um álbum na íntegra, do começo ao fim. E sempre que penso no assunto, me lembro de um ex-professor de música que tive, que no meu primeiro dia de aula me entregou um pedaço de papel rasgado na mão, com uma citação de um livro, que dizia:

“Bem-aventurados aqueles que mesmo com a opressão dos acontecimentos do dia-a-dia, ainda conseguem parar para ir a um lugar confortável e dedicar um momento exclusivo ao ato de ouvir uma música.

Se deixar sentir, se entregar a uma obra de começo, meio e fim, criada por um artista, e assim, por um momento, entrar em seu mundo idealizado e perder a dimensão da realidade.”

Lembrei dele mais uma vez enquanto fotografava e observava as pessoas no show do “E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante” durante o Festival Dezindie. A banda instrumental havia recém-lançado o introspectivo álbum “Fundação”.

Me senti feliz por estar ali. Entre uma foto e outra, eu parava para olhar as pessoas: algumas com expressões sérias e olhares atentos enquanto outras estavam mais inquietas e sorridentes. Fiquei pensando no quão fascinante é a capacidade de uma mesma música conseguir gerar emoções tão diferentes em cada um. Não necessariamente aquelas intencionadas pelo artista, mas ainda assim, proporcionadas por ele.

Lavei minha alma naquele dia.

Lembro que estava vivendo uma semana difícil em que estava para tomar algumas decisões importantes na minha vida, e naquele momento, percebi que precisava de um tempo para dissipar a cortina de fumaça que a rotina acaba produzindo em nossa mente. E também que era necessário um pouco mais de atenção naquilo que é essencial para mim e deixar de lado o que andava me sobrecarregando.

Algumas experiências transformam, e pouco importa se essas transformações vem de dentro pra fora ou de fora pra dentro. O importante é reconhecer que elas acontecem o tempo todo e às vezes a gente precisa, de alguma maneira, dar uma desacelerada para realmente compreendê-las, e assim desenvolver a sabedoria que vai guiar a direção de nossos próximos passos.

Agora vamos adiante.

“Enquanto a canção toca e o som se faz presente, há silêncio na alma.

Quem tiver interesse em conhecer mais do meu trabalho como fotógrafo de bandas: https://www.flickr.com/photos/sergiohyj

Por | 2019-08-06T21:40:18-03:00 5 agosto - 2019|Escritos, Festival Dezindie 2018, Textões|