Os Oxímetros

Quem é que nunca segurou a bomba nos dentes como uma arataca?

_ Tiuô, vamos brincar de médico? (Segura a corda)
_ Ah, não! Não gosto de brincar de médico! (O frio da consciência pesada)

A fraga na boca do Cão? O porco a maçã o titã a prole.
Quem é que nunca contou os próprios pulsos com o indicador e o médio?
O sangue espessando musgos nas veias.

_ Por quê? (Transforma o objeto num estetoscópio)
_ Tenho medo. (Fita a reação)

Quem é que nunca hesitou no meio do caminho?:
a gota secando secando na queda.

_ Não vai ter injeção! (Expirando)
_ Então posso pensar no caso. (Inspirando)

A face de Pietà pelas mãos de Bouguereau;
O peito, a barriga, as artérias de São Sebastião.

_ Qual é o seu problema? (Recolhe o trôpego bafo)
_ A doutora tem tempo? (A dúvida acoelha a criança)
_ Agora é a hora que você fala, tiuô, o seu problema: rinite, bronquite, sinusite… Pedra no rim. (Respira) Minha mãe tem pedra no rim.
_ Certo… (Engole o “então”) tenho o coração grande. (Silêncio)
_ Não vale! Isso não vale! (Atravessa os braços)
_ É o meu problema, ué. (Não pisca)
_ Tá bom! Vou te examinar. Respira. (Infla o tórax) Mais uma vez…

Quem é que nunca cruzou os dedos? Figa? Fuga?
Tão verde os olhos como se dispõe a esperança às horas dos imortais.
Nas costas do diabo.
No pudor dos anjos.
Na enlameada certeza das carolas.
Quem é que nunca apelou pra cima?
(Os mamilos de tão sugados esverdeam os lábios.
As rachaduras na língua áspera das lidas)
Há um boato no fundo do copo.
Meus lumes desenham um fundilho de fé na borra dos dias.

_ Pronto? (A presença da Cigana)
_ Pronto. (A palma para as nuvens cinzas)
_ Qual é o veredito, doutora? (As linhas labirínticas)

A razão flutuante pipa de estirado estirante –
Pensa!: derrelição precoce vulcaniza a derme.
Confidencia o desespero.
O abacaxi azedo ao largo das feiras.
Dos efebos. Dos desaventurados.
Permaneça detento ao tempo
das coisas que morrem subitamente.

_ Não tem “benedito”, tiuô. O tio é muito bagunçado.

(Um homem de cinquenta e um invernos
o lado esquerdo da vida adormece)
Olhou-se o reflexo – uma parte,
uma grande parte dos imbróglios irremissíveis
não me cabe.

_ É por isso o coração grande? (O arremesso do cascalho)

Os castanhos mais pálidos dos luzeiros.
A pele mais grossa.
A voz grave toda pairando no céu das entranhas.
O animal atento ao predador.
Os perfumes fugiram dos banheiros;
Partiu-se o cheiro vai-se o ludo.
Como se desvanecesse aquele tão gostoso odor da fábrica dos sucos de laranja de Araraquara:
A solidão das tardes!: onde há fumaça há fogo? Esperas? Sofomanias?
Já o tamanho das orelhas, ultrapassou-o.
(O elefantinho voando baixo
como uma pena prestes)

_ É por isso. (O quarto ao avesso)

Faz arredio o remorso das avencas do corpo onde alojaram-se
e que, subitamente, tentam em toda inutilidade qualquer charme.
Como o sorriso de um defunto no caixão.

_ O tio é muito bagunçado.

Por |2018-08-06T12:30:04-03:006 agosto - 2018|Contos, Escritos|
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