Sobre as mãos no Brás.

Deixe sua mão à mostra para que fiquem claras as suas intenções. Esta é uma regra básica do convívio em meio às violências do caos urbano. A mão de um, quando não perceptível pelo olhar de outro, é, portanto, aquela que não te diz a que veio.
Pode ser uma ameaça? Pode ser traiçoeira? Pode estar armada? Pode estar preparada para te dar um tabefe? Fazer um carinho? Bom, carinho acho que não, afinal: estamos em meio às violências do caos urbano!
Fazia um bom tempo que não caminhava pelas ruas do Brás, em São Paulo. Hoje passei uma horinha no amado point dos revendedores de roupas baratas no estado de São Paulo, talvez point para revendedores de toda a região sudeste do Brasil. Uma hora caminhando por entre rolos de tecidos, lojas de camisetas, estamparias, vestidos, blusas de moletons, caixas com dezenas de produtos com “pequenos defeitos” vendidos a poucos reais pois é melhor vender barato do que mandar pro lixo.
Nesta região do centro paulistano, tão perceptíveis, chamaram-me a atenção, elas: as mãos.
Tem as mãos ágeis que recolhem em segundos uma lona esticada na calçada, repleta de camisetas e bermudas acompanhadas de um papel com o escrito “R$10 CADA”. São mãos que tem de ser ligeiras, pois, perto dali perambulam mãos à altura da cintura, no mesmo ritmo da passada lenta e despreocupada, mas que, teme-se, pode se tornar um risco, de detenção, de perda de mercadorias, de grandes problemas.
Tem mãos que entregam panfletos: de um lado, uma nota advertidamente falsa de vinte reais, do outro a foto de uma mulher vestindo apenas calcinha. Tem as mãos da mulher na foto, e estas também são parte da questão.
Tem as mãos que assinam decretos, reajustes, mudanças. Mãos que definem qual área valorizar e qual área desprezar – que, à distância, tem coautoria na responsabilidade pelas mãos que, no início da manhã, na calçada, enrolam um cobertor e juntam alguns poucos pertences, ainda que tenham passado a noite se protegendo do frio debaixo da marquise de um prédio repleto de apartamentos vazios.
“Deixe as mãos bem à mostra, onde eu possa vê-las!”. Mesmo que muitas se ocultem longe daqui, as mãos daqueles que plantam a semente da miséria são escancaradamente visíveis nas mãos que tateiam o chão por sobrevivência e se deparam, nada mais nada menos, do que com a miséria aflorada.

Agradeço ao Henrique, que recuperou o caderninho em que escrevi o original deste texto!

Por | 2018-08-23T10:07:07+00:00 23 agosto - 2018|Sem categoria, Textões|