Todo dia o muriqui descia no meio das capivaras para buscar os frutos caídos e levá-los aos filhotes, vinha sempre no mesmo momento do dia, calmamente passando entre as capivaras, mais sossegadas ainda, coletando os frutinhos sem temer nada, sob a sombra de um grande araçaizeiro. O muriqui não notara que havia algum tempo um jovem jagüarundí circulava pela região, esperando o melhor momento para atocaiar uma presa do tamanho de suas capacidades.
O canindé e sua família apareciam diariamente com estrépito e coloridamente, ele ralhava com todos os bichos, indo busca ora um coquinho, ora um frutinho, se aproximava, se afastava dos outros, mas muito observador sabia exatamente quem fazia o que, como e quando. Ao muriqui que passeva entre as capivaras disse:
Amigo, estejas atento, pois um bicho feroz quer te pegar.
Ao jagüarundí vinha a cada dia lhe contar quais eram as feras e pequenos animais que frequentavam aquele sombreado recuado alguns metros de uma ribeira verdejante. Dava detalhes e conversava sem parar, pois outra não era sua natureza, entretinha o jovem jagüarundí, que de início se entediava, no entanto, aprendeu as lições espontâneas dadas pelo canindé:
Observa, jovem fera, que aquele muriqui vem sempre à mesma hora, já lhe disse que aqui é perigoso, que ele precisava ser mais desconfiado e astuto. Agora vê ali, ele continua, vem todo dia, desce todo dia, pega os frutos, é uma presa fácil fácil, o que pensas?
Atentando ao que dizia a ave espalhafatosa e observando o muriqui, o pequeno felino conseguiu finalmente morder o pescoço do canindé, matá-lo e comê-lo.
Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo.