Escadas rolantes

Saindo do vagão as pessoas corriam. Eram cinco horas da tarde e elas disparavam, primeiro pela escada rolante, e quando esta enchia de gente correndo, a ponto que ninguém mais podia correr, corriam então pelas escadas normais. Da primeira vez que viu isso não entendeu direito; pensou ser estranho tanta pressa, será que estavam todos

OLIPHANT E RIGBY

São sobrenomes distintos, de duas pessoas distintas, não contemporâneas, porém atemporais, de universos artísticos diferentes – uma da literatura, outra da música – mas que têm o mesmo nome de batismo: Eleanor. Bonito nome. A Eleanor da literatura é funcionária administrativa de um escritório de design, não sai de casa, a não ser pra trabalhar,

Quipã

Preliminar. Tua cara de preguiça. Teus lânguidos lumes. Tua boca esboçando uma lenta fome que se coça. Se aproa do teu peito uma quentura desmedida. Começo a recolher os dedos de meus pés: eis o monstro invertebrado embaixo da chama que alastra-se em segundos; aqui estamos banhados em álcool e o sono afugenta-se entre ritos

Diário do silêncio. Segunda Parte | Ombros de Umbral

Acordou subitamente num estalar de dedos com os olhos escancarados. Teve um sonho peculiar. Assustador. Sonhara que estava amarrada pela língua numa figueira enquanto um metade cachorro metade homem mordia-lhe o calcanhar. Agonizava. Ao lado dela, outra meia duzia de pequenas e suspeitas declarações. Outros que também pela língua, amarrados, esperavam sua hora da mordida.

Cerrado brim corrente

Existem só dois dias e duas noites Eles se intercalam entre os muros Daquele dia em que me ouço Daquele que me despeço de mim Elas, entre o desespero e o abraço, Minguam luares, despedem cetim Sacodem o tempo e bailam Sonâmbula fratura crivado delírio Moribundo corpo e consciência E é tudo incessante, perene inconstante

Diário do Silêncio

Primeira Parte - SÚCUBO. Ontem, imaginei-me súcubo. Espreitando teu sono na véspera de uma tola meia noite. Percorrendo cada desgraçado contorno que teu corpo faria despido na cama. Na surdina. Invisível. Cada espaço vago. Cada curva. Por duas ou três vezes. Passaria minha boca na pele e guardaria inflamado nas narinas o seu cheiro. Súcubo.

Fumaça para o Futuro

Por horas, nada conteve o fogo Por séculos, nada deteve os golpes O descaso presente carboniza o passado E sua fumaça asfixia o futuro Ardem as paredes que viram assinada nossa frágil independência Se ela nunca existiu, Agora não cabe nem no discurso Colonias não têm acervo de ciência e arte nacional Aqueles objetos destoavam

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